PALAVRAS DESNECESSÁRIAS
Gostaria de saber o que sustenta a sem-razão de exigir que estudantes
(de ensino médio, e até de ensino superior), que podem escrever textos de 10 ou 15 linhas, elaborem escritos de 20 ou 40 (quantidades “mínimas”). Gostaria de
saber o que pensam certos professores de Língua Portuguesa a respeito dos
preceitos que devem presidir à elaboração de um texto.
O que se vê, nos concursos e nas escolas, são limites muito
arbitrários. Contudo, quem se põe a
escrever deve se preocupar com a concisão.
Lembro-me de uma professora de Sociologia, que pediu um trabalho de pelo menos 40 linhas. Embora eu não me lembre do
que escrevi, tenho viva a lembrança de que eu podia ter terminado a composição
na 25ª linha; contudo, fui obrigado a preencher mais 15.
“Nos antigos concursos do Banco do Brasil, costumava-se pedir que os
candidatos redigissem carta de acordo com um tema (...). Mas como a intenção
era apurar o grau de conhecimentos de gramática do candidato (e não de técnica
de redigir), o banco fixava os limites máximo e mínimo de linhas de cada carta:
mínimo de 15 linhas, máximo de 25.” (Diógenes
Magalhães, Redação com base na
Linguística (e não na Gramática), 10ª edição, pág. 117.)
“Insistimos em que era errado tal critério. Se o candidato elaborasse
uma boa carta em 10 linhas, nas quais dissesse tudo quanto fosse necessário, e
de maneira clara, simples e correta, devia ser aprovado com distinção e
louvor.” (Idem, ibidem, 117.)
“Foi passando o tempo, e como os candidatos eram aprovados sob esse
critério, criou-se a mística de que a maneira certa de escrever cartas
comerciais (ou bancárias) era escrever cartas longas: quanto mais comprida a
missiva, tanto melhor seria considerada. Cartas de três linhas, por exemplo,
nada valiam.” (Idem, ibidem, 117.)
“Mas o contrário disso é que é o certo. (...) As mensagens curtas são as
melhores. O poder de síntese é dificílimo de ser alcançado, mas é o que mais se
deve lutar por conseguir.” (Idem,
ibidem, 117.)
“Mas o contrário disso é que é o certo...” Infelizmente, muitos professores não pensam assim.
“Ensinam” como fazer redações, ou apenas exigem que se façam, sem
todavia explicar bem a técnica de lidar com a palavra. Os bons professores se
esforçam por ensinar algo, mas não podem ensinar muito. No caso dos alunos que
queiram se submeter ao Exame Nacional do Ensino Médio (o Enem) e ao vestibular,
o professor é obrigado a exigir textos de pelo menos 20 ou 25 linhas. Acho
difícil elaborar uma dissertação com menos, mas é preciso lembrar que o aluno
que elabora um bom texto de 19 linhas, por exemplo, deve receber boa nota,
porque os concursos públicos não são mais importantes que a lógica e o bom
senso. Entretanto, mesmo os bons professores, apesar de terem a boa vontade de
realmente ensinar algo, caem na tolice de estabelecer quantidades mínimas de
linhas que, em verdade, não são tão mínimas, por causa dos concursos. O que o
professor de Redação deve dizer aos alunos é isto: “Quero que escrevam uma
redação sobre tal tema. A meu ver, vocês não conseguirão elaborar um bom texto
com menos de 20 linhas, mas posso estar enganado, de modo que receberá boa nota
o aluno que conseguir dar à luz um bom escrito com menos de 20, pois é difícil
economizar ou eliminar palavras desnecessárias. Contudo, não devem passar de 30
linhas, embora o limite máximo também possa ser injusto, de modo que não
tirarei pontos caso algum de vocês me apresente um texto que exceda esse
limite. Saibam que é bom respeitar o mínimo de 20 ou de 25 linhas, porque o
mínimo dos concursos, em geral, é uma dessas quantidades, que, apesar de não
serem necessariamente absurdas, são arbitrárias. Sei que é injusto estabelecer um limite
mínimo que pode ser longo e um máximo que pode ser curto; por isso vocês podem ficar à vontade para não respeitar o
número de linhas que sugiro. Não quero que escrevam nem de mais, nem de menos:
quero que escrevam apenas o necessário. É difícil, eu sei. Contudo, peço que se
lembrem de respeitar os limites num concurso, os quais impõem limites em vez de
sugerir.” Algum professor já disse isso?
Um dia ainda descobrirei por que
professores de Português e de Ciências Humanas não percebem que difícil é dizer
MUITO com POUCAS palavras; um dia ainda serão convencidos de que é muito mais
digno de boa nota o aluno que consegue contar uma boa história ou dissertar em
25 linhas em vez de 40.
Professores que ignoraram a realidade e desprezam o princípio da
concisão não sabem redigir, e portanto não devem “ensinar” nem cobrar redações
de ninguém. Que sabem eles? Têm o hábito de escrever? Seriam eles capazes de
fazer um bom texto no Enem?
Devem voltar a estudar os professores que ignoram o princípio da
concisão. Adotado esse preceito,
elimina-se a mística de que todo bom texto é necessariamente longo, aprende-se
que dizer mais com menos palavras é o correto e difunde-se a preocupação com o
leitor, que quer textos concisos. Isso é possível: Basta saber que concisão não
é o mesmo que pobreza de conteúdo.
(Duque de Caxias, 1 de janeiro de
2013.)
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