A TARIFA DE
ÔNIBUS
(Crônica.)
Por
Márcio
Alessandro de Oliveira
É
este um tema repetido em toda a baixada fluminense. O que mais fazemos —
nós, caxienses — é ir ao trabalho de ônibus, de modo que, com exceção da
notícia (que não deve nem pode conter opinião, pois aí deixaria de ser apenas
notícia), todo escrito que se propuser a falar do assunto não terá outro
destino senão o de ser um desabafo, que, em tese, de nada adiantará para
alterar o quadro revoltante do transporte público do município. E se
vamos ao trabalho de ônibus, é impossível para mim, cronista de quinta classe,
alimentar o desejo de contar novidades. Ora, só há notícia sobre o preço
da passagem de ônibus porque as pessoas querem saber o valor; mas ter novidades
— isso não querem, porque já estão fartas de saber que o preço mais sobe do que
desce. O único diferencial, portanto, é o valor, que, quer seja divulgado
nos jornais, quer não, terá de ser pago.
Os jornalistas
(que criticam a todos, e não admitem que ninguém os critique) não devem achar
que seja tão meritório escrever uma notícia sobre tarifa de ônibus: só o fazem
porque precisam de preencher o espaço das gazetas e dos telejornais. É só
por isso que o aumento da tarifa merece publicação. (“Os americanos (...)
dizem que, quando um cão morde uma pessoa, não temos uma boa notícia, pois esse
fato é corriqueiro; agora: quando uma pessoa morde um cão — aí, sim: temos
notícia, da boa.” (Diógenes Magalhães, Redação com base na linguística
(e não na gramática), pág. 179.))
Tentemos,
contudo, conversar sobre a tarifa.
Quem mora no
terceiro distrito, como eu, pergunta-se:
— Que devo
fazer? Esperar quatro eternidades na estação de trem (ou de comboio, para o
leitor que vivia em Portugal) e pagar um preço injusto, ou esperar duas eras
pelo ônibus e pagar ainda mais alto preço?
Existe um
conjunto de circunstâncias muito engenhoso para que as empresas de ônibus
tenham os negócios funcionando muito bem. Entre elas estão a urina
acumulada por semanas nas estações ferroviárias, a demora do trem e o monopólio
de itinerários.
Pouquíssima é a
atenção às estações de trem da cidade. Como se não bastasse a falta de
trens, não são limpas: há sempre a necessidade de prender a respiração nelas
(e, no caso dos hipocondríacos, a necessidade de fazer assepsia). (Isso,
aqui, em Duque de Caxias. Magé e Guapimirim, como todos nós sabemos, têm
ainda pior sorte.) Mas a empresa que administra as linhas de trem é que
não está para isso. Estamos a ver: em vez de crescer, limita-se ela a dar
conta de uma demanda que prefere superlotar os trens a superlotar os
ônibus. Prefere? Não, não prefere: a maioria das pessoas que vai a
algum lugar de trem não o faz por preferência, e sim por economia (de dinheiro
e até de tempo, posto que obviamente não há engarrafamento nas
ferrovias).
Deve ser
maravilhoso para cada um dos donos de empresa de ônibus. Posso vê-los
sorrindo sadicamente, enquanto seguram uma taça de champanha, numa piscina que
fique nalgum bairro “nobre”.
Imaginemos uma
conversa entre mim e eles:
Eu: — Não lhes
ocorre que talvez estejam prejudicando outros de sua classe? Não acham
que, aumentando o preço da passagem, estarão impedindo que as pessoas passeiem
e gastem dinheiro?
Eles: — Não: são
altíssimos os impostos, e o preço da gasolina sobe, e não podemos nos
prejudicar. Além disso, abaixamos, em Imbariê, a passagem aos domingos;
assim você e os de sua classe podem ir ao Caxias Shopping para
experimentar um pouco da felicidade que o capitalismo oferece. Achamos
que seria um modo de fazer com que se calassem um pouquinho.
Eu: — E
nós? É justo que sejamos prejudicados, mesmo sendo a maioria?
Eles: — A vida é
assim mesmo.
Eu: — E o mercado de
trabalho? Como iremos trabalhar, se as empresas não quiserem pagar a
passagem que os senhores nos impõem?
Silêncio.
Eu: —
Respondam! Estou esperando!
Eles: — Rapaz:
não temos tempo para discutir com crianças de sua idade: temos de contar os
lucros; por isso, vá rodando.
Eu: — Ah!, sei
que têm de contar os lucros; certamente já chegaram à estratosfera!
Alguns dos senhores pagam ao motorista o salário de apenas um funcionário,
mesmo que ele tenha de fazer o serviço de cobrador também. Pouco lhes
importa que ele tenha de dirigir e contar o troco ao mesmo tempo; pouco lhes
importa que, ao fazer isso, coloque em risco a vida de pedestres e ciclistas,
porque nenhum destes é seu filho.
Eles: — São
tempos de crise.
Eu: —
Crise? Os senhores estão lucrando! Acabaram de dizer isso!
Eles: — E o que
sabe você de economia?
Eu: — O que
aprendi na escola, à qual não queriam que eu fosse, posto que muitas vezes me
foi negado o direito de entrar no ônibus só porque eu estudava em escola
pública.
Eles: — É
lógico: você não pagava a passagem.
Eu: — Quanto
cinismo! E não me negavam só o acesso à escola: negavam-me o acesso à
biblioteca do meu e de outros distritos também! Logo o acesso à
biblioteca, onde posso ler, que é mais importante que estudar!
Eles: — Por que
você quer ler? E para quê? Esqueça essas coisas: você tem de
trabalhar como assalariado obediente. Tire carteira de motorista, e deixe
currículo numa empresa de ônibus.
Eu: — Prefiro
passar fome.
Eles: —
Indolente! Você tem de produzir! E o nosso bem-estar?
É o trabalho que o garante!
Seria impossível
continuar. Eles só chegam a um consenso entre si para que um não tire o
monopólio de itinerário do outro (como ficará dito mais adiante).
Aí está: aos
empresários interessam tão só as queixas que fazem uns aos outros; e fica tudo
muito bem. Muito bem, vírgula, porque quanto mais passa o tempo,
pior torna-se o serviço dos rodoviários, os quais, por não poderem se rebelar
contra a exploração a que são submetidos, descarregam a raiva nos passageiros,
que tentam processar as empresas. Basta ver o péssimo serviço de alguns,
que certamente é fruto da infelicidade. Tomemos como exemplo um fiscal
(veja bem: um fiscal, e não o fiscal).
Havia pouco
tempo (pouco mais de um mês), na Washington Luiz (BR 40), entrava um sujeito no
ônibus para fiscalizar. O desgraçado punha-se a fazer o trabalho com
tanta minúcia, que demorava mais de cinco minutos (!). Logo os
passageiros passaram a queixar-se: começaram a manifestar pensamentos que só
com muito autocontrole poderiam ficar ocultos, embora nenhum deles tivesse
caído no palavrão. Entretanto, o nosso herói lançava olhares severos aos
lugares de onde vinham reclamações, como se com isso pudesse intimidar alguém:
era irredutível; tanto que até retrucou quando alguém “atreveu”-se a censurá-lo
ainda mais claramente. A gota d’água, todavia, foi certa noite, quando o
referido fiscal começou a contar o número de assentos ocupados num ônibus que
estava completamente lotado.
— Quanta
burrice! (bradou um senhor). Não vê que todos os assentos estão
ocupados! Se quer contar, procure o número de assentos vazios; depois,
faça a subtração! Ou o senhor não sabe? Se não, volte para a
escolinha!
Zangado, o
fiscal respondeu, mas só o fez por fazer. No fundo, estava arrasado, pois
sabia que errara, sabia que tomara o tempo dos passageiros. Devia estar
amargurado por fazer um trabalho que o forçava a repetir uma operação; e quando
teve oportunidade de fazer outra mais simples, não pôde, por causa da força do
hábito.
Depois disso
nunca mais vi aquele fiscal — o que me entristece, porque talvez tenha sido
demitido; mas também me alegra: é muito bom saber que o ônibus me levará à
Avenida Brigadeiro Lima e Silva passando pela Washington Luiz sem longo atraso.
Mas se eu,
habitante do terceiro distrito, quiser ir ao centro do município pelo mesmo
caminho, não poderei tomar o ônibus de outra empresa, pois só há uma que faz o
trajeto, que é o mais rápido. Às demais resta a Avenida Presidente
Kennedy. Esse é o monopólio de trajeto, esse é o consenso a que chegaram
os empresários.
Pagamos um preço
altíssimo, toleramos a petulância dos rodoviários (os estudantes de escola
pública mais que qualquer um), e ainda temos de suportar calor (na maioria dos
ônibus não existe ar refrigerado) e sujeira. Naturalmente, se
reclamássemos aos empresários, eles diriam:
—
Mentira! É justo o preço da passagem; nossos funcionários são felizes; e
nossos ônibus, refrigerados e limpos.
E eu
acrescentaria:
— É claro que é
justo o preço da passagem, mas só para os senhores, que não vão a lugar nenhum
de ônibus! Os senhores sempre negarão tudo quanto se lhes disser sobre os
absurdos que existem no seu empreendimento! Nenhum dos senhores dirá: “É
verdade, você e os outros cidadãos estão certos, e nós, errados: temos de
melhorar a qualidade, substituir os micro-ônibus por ônibus grandes, dar
emprego aos cobradores, etc.”
Entro nos ônibus
desta cidade todos os dias, porque tenho de ir à universidade. E é caro
fazer isso: meu dinheiro é pouco; e no entanto tenho de gastá-lo pagando uma
tarifa de mais de quatro reais uma vez por dia (duas, se eu não for de trem,
cuja passagem é de dois reais e oitenta centavos), quatro vezes por semana (não
tenho aula às quintas-feiras). E ainda há as mensalidades. No
Brasil, assim como em outros países, o universitário deve pagar para
trabalhar. Sim, pagar para trabalhar:
estudo é
trabalho (premissa maior);
tenho de pagar
para estudar (premissa menor);
logo, tenho de
pagar para trabalhar (conclusão).
Apesar de
tamanha dificuldade, vou à sala de aula assim mesmo, à noite. No caminho
de volta, depois de descer do ônibus a más horas, com poucas moedas no bolso e
calça rasgada, penso nos assaltos a ônibus que poderiam ter acontecido, e que
de fato acontecem, porque, assim como a tarifa de ônibus, a segurança pública
depende da política, que é cada vez mais cruel para com o povo caxiense.
Não desconfiam
os ignorantes que a tarifa que tanto detestam é resultado da política a que têm
aversão. Em outras palavras, os analfabetos políticos se queixam, mas não
sabem que a política é a raiz de tudo na sociedade, que é “um grupo de
indivíduos que explora outro grupo de indivíduos”. (Machado de
Assis.) Não deve ser difícil ouvir de alguém que não saiba o porquê das
coisas: “Fulano rouba, mas faz.” (Tolice maior não poderia haver.)
Estão chegando
as eleições de 2012, mas não há, até onde sei, um movimento político que se
oponha seriamente às empresas de ônibus. Esperemos, pois, que um grupo de
candidatos mostre uma proposta que beneficie os que realmente produzem a
riqueza do município, e não os que dela se aproveitam.
Agora, um último
desabafo: Hoje tenho dinheiro de passagem para ir à sala de aula, mas amanhã
deverei não ter. Talvez a solução seja vender fósforos.
Duque de Caxias, 21 de novembro de 2011.
APÊNDICE
Algum tempo depois de esta crônica ter sido publicada no Caxias
Digital, subiu de novo o preço da passagem de ônibus em Duque de
Caxias. No terceiro distrito, paga-se um absurdo quando se vai ao centro
do município.
Dias atrás o preço da passagem das barcas também aumentou, e para
impedir que manifestantes quebrassem o patrimônio da empresa responsável por
elas, a polícia ficou de prontidão perto das roletas. A diferença é que
lá o Ministério Público está investigando o aumento, enquanto aqui... Tudo
continua a mesma coisa, embora tenha sido feito um abaixo-assinado.
Naturalmente, resta aos empresários a desculpa de que cartões
iguais ao Bilhete Único sejam a solução. Isso é
mentira. Com efeito: o dinheiro público — o nosso dinheiro
— é usado para pagar aos empresários o restante do valor que não se paga com o Bilhete
Único — como bem observou um passageiro das barcas ao ser entrevistado pelo
RJTV. Então, se com um cartão alguém pagar menos de quatro reais
por uma passagem de quatro reais e noventa centavos, o restante do valor o
governo pagará com o dinheiro dos impostos. É falso,
portanto, o raciocínio segundo o qual o passageiro paga menos com o Bilhete
Único, cujos créditos também custam muito, mesmo que com ele a tarifa fique
mais "baixa" do que quando esta é paga com cédulas ou moedas.
***
É absurda a expressão Caxias Shopping. Se shopping
(de shopping center) não fosse um termo estrangeiro, ele poderia ser
usado, desde que fosse abandonada a sintaxe inglesa; assim: Shopping de
Caxias. Comparem: Biscoitos da Nestlé, ou: Biscoitos Nestlé (e não Nestlé
biscoitos). Como, porém, shopping é um termo estangeiro,
deveria ser substituído por Centro de lazer (em alguns casos, o termo
deveria ser substituído por centro de compras, ou por algum neologismo
que não seja um circunlóquio); logo, Caxias Shopping deveria ser
conhecido como Centro de lazer de Caxias.
Evidentemente alguns linguistas acham que isso é bobagem, que shopping,
um anglicismo, foi aceito porque a língua "evolui". Estão
iludidos: Shopping é uma palavra perfeitamente substituível, como
qualquer outra: só foi aceita porque a ditadura linguística dos ignorantes
desprovidos de personalidade é a que impera. Para eles, os semideuses
norte-americanos possuem palavras sublimes. Temos aqui mais uma prova —
entre várias — do complexo de inferioridade dos brasileiros, que é tão grande,
que se pode dizer que são macacos de imitação dos super-homens do norte.
(Quem se detiver para ler Redação com base na Linguística (e não na Gramática) e Língua, Linguagem, Linguística..., do professor Diógenes Magalhães, entenderá o que estou dizendo. Aquele competentíssimo linguista realmente sabe usar o bom senso; e conhece muito bem a Língua Portuguesa, cujo bom uso defende com fervor.)
Contudo, não me restou escolha: tive de usar, ainda que a
contragosto, o nome Caxias Shopping.
Duque de Caxias, 11 de novembro de 2012.