terça-feira, 1 de janeiro de 2013

PALAVRAS DESNECESSÁRIAS
 
       Gostaria de saber o que sustenta a sem-razão de exigir que estudantes (de ensino médio, e até de ensino superior), que podem escrever textos de 10 ou 15 linhas, elaborem escritos de 20 ou 40 (quantidades “mínimas”).  Gostaria de saber o que pensam certos professores de Língua Portuguesa a respeito dos preceitos que devem presidir à elaboração de um texto.
       O que se vê, nos concursos e nas escolas, são limites muito arbitrários.  Contudo, quem se põe a escrever deve se preocupar com a concisão.
       Lembro-me de uma professora de Sociologia, que pediu um trabalho de pelo menos 40 linhas. Embora eu não me lembre do que escrevi, tenho viva a lembrança de que eu podia ter terminado a composição na 25ª linha; contudo, fui obrigado a preencher mais 15.
       “Nos antigos concursos do Banco do Brasil, costumava-se pedir que os candidatos redigissem carta de acordo com um tema (...). Mas como a intenção era apurar o grau de conhecimentos de gramática do candidato (e não de técnica de redigir), o banco fixava os limites máximo e mínimo de linhas de cada carta: mínimo de 15 linhas, máximo de 25.”  (Diógenes Magalhães, Redação com base na Linguística (e não na Gramática), 10ª edição, pág. 117.)
       “Insistimos em que era errado tal critério. Se o candidato elaborasse uma boa carta em 10 linhas, nas quais dissesse tudo quanto fosse necessário, e de maneira clara, simples e correta, devia ser aprovado com distinção e louvor.”  (Idem, ibidem, 117.)
       “Foi passando o tempo, e como os candidatos eram aprovados sob esse critério, criou-se a mística de que a maneira certa de escrever cartas comerciais (ou bancárias) era escrever cartas longas: quanto mais comprida a missiva, tanto melhor seria considerada. Cartas de três linhas, por exemplo, nada valiam.”  (Idem, ibidem, 117.)
       “Mas o contrário disso é que é o certo. (...) As mensagens curtas são as melhores. O poder de síntese é dificílimo de ser alcançado, mas é o que mais se deve lutar por conseguir.”  (Idem, ibidem, 117.)
       “Mas o contrário disso é que é o certo...”  Infelizmente, muitos professores não pensam assim.
       “Ensinam” como fazer redações, ou apenas exigem que se façam, sem todavia explicar bem a técnica de lidar com a palavra. Os bons professores se esforçam por ensinar algo, mas não podem ensinar muito. No caso dos alunos que queiram se submeter ao Exame Nacional do Ensino Médio (o Enem) e ao vestibular, o professor é obrigado a exigir textos de pelo menos 20 ou 25 linhas. Acho difícil elaborar uma dissertação com menos, mas é preciso lembrar que o aluno que elabora um bom texto de 19 linhas, por exemplo, deve receber boa nota, porque os concursos públicos não são mais importantes que a lógica e o bom senso. Entretanto, mesmo os bons professores, apesar de terem a boa vontade de realmente ensinar algo, caem na tolice de estabelecer quantidades mínimas de linhas que, em verdade, não são tão mínimas, por causa dos concursos. O que o professor de Redação deve dizer aos alunos é isto: “Quero que escrevam uma redação sobre tal tema. A meu ver, vocês não conseguirão elaborar um bom texto com menos de 20 linhas, mas posso estar enganado, de modo que receberá boa nota o aluno que conseguir dar à luz um bom escrito com menos de 20, pois é difícil economizar ou eliminar palavras desnecessárias. Contudo, não devem passar de 30 linhas, embora o limite máximo também possa ser injusto, de modo que não tirarei pontos caso algum de vocês me apresente um texto que exceda esse limite. Saibam que é bom respeitar o mínimo de 20 ou de 25 linhas, porque o mínimo dos concursos, em geral, é uma dessas quantidades, que, apesar de não serem necessariamente absurdas, são arbitrárias.  Sei que é injusto estabelecer um limite mínimo que pode ser longo e um máximo que pode ser curto; por isso vocês podem ficar à vontade para não respeitar o número de linhas que sugiro. Não quero que escrevam nem de mais, nem de menos: quero que escrevam apenas o necessário. É difícil, eu sei. Contudo, peço que se lembrem de respeitar os limites num concurso, os quais impõem limites em vez de sugerir.”  Algum professor já disse isso?
       Um dia ainda descobrirei por que professores de Português e de Ciências Humanas não percebem que difícil é dizer MUITO com POUCAS palavras; um dia ainda serão convencidos de que é muito mais digno de boa nota o aluno que consegue contar uma boa história ou dissertar em 25 linhas em vez de 40.
       Professores que ignoraram a realidade e desprezam o princípio da concisão não sabem redigir, e portanto não devem “ensinar” nem cobrar redações de ninguém. Que sabem eles? Têm o hábito de escrever? Seriam eles capazes de fazer um bom texto no Enem?
       Devem voltar a estudar os professores que ignoram o princípio da concisão.  Adotado esse preceito, elimina-se a mística de que todo bom texto é necessariamente longo, aprende-se que dizer mais com menos palavras é o correto e difunde-se a preocupação com o leitor, que quer textos concisos. Isso é possível: Basta saber que concisão não é o mesmo que pobreza de conteúdo.
 
                                                                                 (Duque de Caxias, 1 de janeiro de 2013.)

sábado, 18 de agosto de 2012

                                                        DESABAFO SURREALISTA

        Às vezes fico a pensar: "Que será de mim quando eu morrer? Que acontecerá comigo? Para onde irei?"

        Este corpo deixará de ser matéria organizada: transformar-se-á em matéria desorganizada. Até aí, nenhuma novidade. Mas, e depois? Minha alma irá apara algum lugar? Se sim, como irá aonde for sem matéria que a abrigue?
        Supondo que a morte dará fim à dor da vida (eis um bom título para uma telenovela!), e supondo que minha alma precise de um "abrigo", acho que, depois de enterrado, virarei mato. Esse mato será abocanhado, mastigado, engolido e digerido por uma vaca. Então, ele, isto é: eu, será expelido por vias normais em forma gasosa — o que não é bom para o meio ambiente, segundo algumas pessoas.
        Em forma de gás, chegaria eu às alturas, até à atmosfera, onde reteria os raios solares. Diante do Ozônio, eu diria:
        — Eu sou o Metano, e você, um fraco. Não pode impedir que os raios do sol entrem em enorme quantidade. Irei retê-los, e assim farei um enorme estrago no planeta para me vingar da sociedade, que me obrigou a trabalhar e a sofrer.
       Com essa atitude, ficaria a flutuar.
 
                                                                         Duque de Caxias, 25 de junho de 2012.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012


SARDAS E ESPINHOS

(Adaptação
— feita com base em traduções amadoras de Sobakasu, música de abertura de Samurai X, tocada pela banda japonesa Judy and Mary; a letra original é da cantora Yuki Isoya.)
O conto de fada acabou assim que você cravou
Um enorme espinho no amor que está num túmulo.
Minhas lembranças não querem diluir:
São como as sardas: não me saem da cabeça.
Um bom tempo já se passou; e aquela noite ficou;
E muitas vezes ainda fico a refletir...
... Assim que você falou, silêncio suspenso no ar.

Não pôde o horóscopo prever que iríamos nos separar (né?).
Mas, se previsse, não iria crer.

Não posso arrancar todo o enorme espinho do peito.
Só me restaram lágrimas p’ra eu me afogar.
Na memória, você lamenta aquela noite.
Mas, então, por que será que, enquanto o meu coração sangrava, você sequer chorou?

O fato é que você é tão "certinho", e eu, tão brava;
Mas é assim que eu sou; isso está na cara.
Já te fiz rir. Ah!, quem me dera voltar no tempo p'ra ver
Você ficar bem feliz — e sorrindo — só de me olhar (!).

Lembro bem quando quis botar um piercing em si só p'ra me impressionar.
Jamais pude rir do episódio...  (Ódio...)

O espelho mostrou sardas de um rosto abatido,
Estas as quais eu queria nunca mais ver.
De nós dois só um chorou com o triste desfecho.
Em todas as manhãs, não me incomodam as sardas: só saber que acabou.

Não posso arrancar todo o enorme espinho do peito.
Só me restaram lágrimas p’ra eu me afogar.
Na memória, você lamenta aquela noite.
Mas, então, por que será que, enquanto o meu coração sangrava, você sequer chorou?
(Na noite em que tudo acabou).

Então, por que será?
                                                                               (Duque de Caxias, junho de 2012.)

 
               

                       
                                                       A PIZZA DA NÃO MORTE


       Terça-feira passada fui ao Caxias Shopping (detesto esse nome!), onde comi, sozinho, uma pizza de mozarela, que era grande — grande o bastante para alimentar duas ou três pessoas. Lembrei-me das artérias antes da comilança, mas a fome era mais forte.
        Depois de comer a pizza, pensei: "Que feito! Fui capaz de comer uma pizza grande sozinho!" Tomei-me de orgulho. Mas, em seguida, achei que eu poderia ter morrido de indigestão. Eu desafiara a morte! Mais um motivo de orgulho! Saí da praça de alimentação alegre, rindo como um bêbado. Morto por uma pizza?! (Leia-se: Morto por causa de uma pizza?!) Seria uma morte hilária. Algum jornal publicaria o fato? Imagine-se a seguinte manchete: "Morre um jovem depois de comer pizza de X gramas". (Aqui uma informação que não dei linhas acima por causa do fluxo da narrativa, que é mais psicológico do que cronológico: Antes de sair da praça de alimentação, perguntei à garçonete quantos gramas tinha a pizza. Ela não sabia (e ainda não deve saber); e eu também não sei.)
       Pensei, enquanto caminhava pelo shopping para ajudar a digestão, o quão mesquinha fora a atitude. Acontece que a felicidade humana é fruto da mesquinharia, e eu, mísero e mesquinho, não fujo à regra. É como diz Brás Cubas: Se apertarmos as botas, e passarmos muito tempo calçando-as, bastará descalçá-las para que venha a felicidade. Em vez de apertar as botas, comi uma pizza.
       Eis aí, leitor, um episódio "edificante" (as aspas dão tom irônico à palavra). (Por que faço questão de dizer que as aspas dão tom irônico? Porque as pessoas não sabem: elas não estudam, de modo que é precio explicar tudo, ou, então, apenas certas coisas.) Naturalmente, nenhum dos macacos que andam e falam poderiam passar por uma experiência "filosófica" tão "sublime": estavam ocupados com gastar dinheiro.
       "Por que não convidou um amigo?", perguntará o leitor. Porque, como ficou dito, sou mesquinho. Além disso, a ideia de comer a pizza surgiu repentinamente e apoderou-se de mim. No zoológico (leia-se: no shopping) eu estava sozinho: eu havia ido lá por ir. E não tenho telefone portátil.
     "Eu pesaria alguns quilos a mais se fizesse o que fez", dirá a leitora. Amiga, entenda uma coisa: quilograma não é peso: quilograma é massa. Mas, não, não engordei: continuo com pouco mais de 62 quilogramas, e meu corpo continua com a magreza de dar inveja às mulheres.
       Da próxima vez, comerei um bolo.

                                                        Duque de Caxias, 22 de junho de 2012.
     

MENSAGEM À MENINA QUE FAZ CURSO TÉCNICO DE QUÍMICA

Vou à sua casa, sempre te querendo;
Quase não te vejo, porque passas muito tempo no IFRJ.
Contudo, sou como água, enquanto tu és oleosa.
Para ti não sou tão bom elemento.

Não misturamos líquidos:
Somos heterogênios.
Nem me vês como alguém de gênio.

Devo é ser insípido.

Com esta paixão atômica,
Falo, falo e não digo nada que te conquiste:
Minha figura é meio cômica.

Que queres tão só estudar é o que dizes,
Mas por seres filha de Deus, já que sonhas,
Não deves é aceitar-me: "sou filho do carbono" sublime.

                                                                       Duque de Caxias, 13 de dezembro de 2011.
                                           UMA LEMBRANÇA DO ENSINO MÉDIO

        Em 2006, estava eu no auditório da escola técnica de ensino médio, em Jardim América, no município do Rio, quando estava sendo feita uma explicação dos motivos pelos quais se tornava obrigatório o ensino de história e cultura da África nas escolas.
        Dizia uma palestrante (que fazia parte de um grupo de quatro mulheres):
        — A mitologia grega é ensinada nas escolas; e eu
mesma gosto fazer analogias: gosto de comparar a mitologia africana com a grega. Muitos conhecem as personagens da mitologia grega, mas quase ninguém sabe o nome das da mitologia africana, porque ensinam uma, mas não ensinam a outra.
        A mulher então fez uma pergunta à plateia:
        — Alguém pode citar um nome da mitologia grega?
        Silêncio.
        Uma menina gritou:
        — XENA!
        Pobre palestrante!
                                                                A CHEGADA DE EVA

        Vivia Adão tranquilamente no Jardim do Éden. Tinha por companhia uma vaca chamada Fifi, de cujas tetas tirava delicioso leite; e era muito feliz por tê-la.
        Um dia, porém, Deus resolveu lhe dar uma criatura chamada Eva, que até aquele momento só o próprio Criador conhecia. Disse Ele:
        — Toma essa mulher para ti, Adão; faz com que ela seja feliz, para que não me perturbe mais.
        — Por quê? (perguntou Adão).
     — Não faças perguntas (disse Deus): sabes que não gosto. E prepara-te, que ela é exigente. Se perguntarem, diz que a fiz de tua costela: será melhor assim.
        Adão achava estranha a recomendação, pois, com exceção de uma gente muito estranha que morava ali do outro lado da cerca, não havia curiosos com quem pudesse conversar sobre Eva — pelo menos não no mesmo idioma. Os vizinhos falavam uma língua desconhecida e cobriam o corpo com panos.
      Foram-se passando os dias, durante os quais começou a se perguntar por que fora castigado com a companhia de Eva, que não gostava da vaca, cujos gases eram, para o dono, o perfume dos perfumes, e cujas fezes eram o melhor dos colchões. Ela implicava com o animal, e gostava de dar ordens. Entretanto, Eva começara a ensinar a deliciosa arte de copular, coisa em que ela era um pouco melhor do que o bicho; por isso, embora a detestase, teve Adão de admitir que tinha alguns encantos.
        Um dia Eva falou:
        — Quero que a vaca vá embora.
        — Nunca!
        Discutiram.
      Deus, depois de fazer Adão dormir, pôs a vaca em outro lugar. Quando notou a ausência do bicho, Adão ficou desesperado:
        — Deus: Onde está a Fifi?
        — Dei aos hindus.
        Adão viu os vizinhos. Tentavam fazê-la cruzar com um elefante. Parecia muito difícil.
        — Fifi! (gritou Adão).
        Ele então foi ao vinhedo; depois, carregando uvas, ofereceu-as em troca da vaca (fez isso gesticulando e apontando, porque não sabia a língua dos hindus). Recusaram.
     Para acabar com aquilo, Eva comeu do fruto proibido, que lhe deu a capacidade de dar leite e de sangrar todos os meses de maneira quase regular. Quando isso acontecesse, ela ficaria mal-humorada e daria ordens.
       Então Adão e Eva foram expulsos do Éden. Tempos depois, encontraram vacas ordinárias, que criaram com gosto, embora Eva já fosse a vaca das vacas.


                                                                                  Duque de Caxias, 2012.